Pensamento Reformado em Meio a Crise

SOLA ESCRIPTURA, SOLA FIDE, SOLA GRATIA, SOLO CRISTUS E SOLE DEO GLÓRIA

quinta-feira, 4 de outubro de 2012


ESTUDO BASEADO EM UM TEMA PROPOSTO NA ESCOLA DOMINICAL EM MINHA IGREJA.
IGREJA PENTECOSTAL BATISTA SHALOM EM ÁGUA FRIA NO JOSÉ AMÉRICO.
PROBLEMA DISCUTIDO: “Você não morrerá enquanto Deus não cumprir suas promessas em sua vida”

JUSTIFICATIVA:
                Este trabalho não visa dividir a igreja, principalmente a minha, mas, dar um esclarecimento bíblico-teológico-exegético do texto que foi levantado para sustentar algo que é duvidoso. Como disse Martinho Lutero: “Todo ensino que não é sustentado pelas Escrituras deve ser rejeitado mesmo que faça chover milagres todos os dias”. É também baseado na exegese do Professor Bruno Pontes da Costa, sociólogo, teólogo e cientista da religião; Mestrando em Ciências da Educação, pela Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia (ULHT) Mestre em Divindade, pela FATEFFIR. Diretor Acadêmico da FAENOR, Faculdade João Pessoa/PB e aluno do curso de letras, licenciatura em línguas clássicas (grego e latim) da UFPB.

O TEXTO:
João 21.20-24
“Pedro, voltando-se, viu que o seguia o discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se reclinara sobre o seu peito, e dissera: Senhor, quem é que te há de trair?
Vendo-o Pedro, perguntou a Jesus: Senhor, e deste que será?
Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Segue-me tu.
Então divulgou-se entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não disse que ele não morreria; mas: se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa a ti?
Este é o discípulo que testifica destas coisas e as escreveu. Sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.”

                Gostaria de começar tratando da problemática atual do movimento que tem acontecido em algumas igrejas e que se reflete nas músicas que são cantadas em nossos dias. Músicas essa que refletem a poesia musical de determinados autores e que consequentemente algumas pessoas tem tomado para si e ensinado para outros o que a Bíblia diz, quando na realidade não há nas Escrituras afirmação daquilo que iremos tratar aqui. Gostaria de relacionar algumas frases dessas músicas:

Deus é fiel. Letra e Música de Nani Azevedo. Conforme Registro no Cd “Bendito Serei”, registrado sob o número BR-CGL-06-00005.
“Sim, Deus é fiel para cumprir toda palavra dita a mim. Deus é fiel, Deus é fiel.
Eu não morrerei enquanto o Senhor não cumprir em mim. Todos os Sonhos que Ele mesmo sonhou pra mim.”

A outra é de Marquinhos Gomes.
“Não morrerei enquanto a promessa não se cumprir
Quem tem promessa de Deus, não morre não, não desiste
Não”

O grande problema não são as letras que por sinal são belas composições. O problema está no fato de que essas mesmas composições têm sido pregadas como normativas e divulgadas como texto que está nas Escrituras. Elas são, talvez, experiências vividas por seus autores o que não deixa de ser belo pois, o ‘eu lírico’ da poesia é que tem demonstrado passar por situações adversas e que encontrou em Deus sua fonte de escape. Como resposta, na canção, Deus faz promessas redentoras ao ‘eu lírico’ examinado na poesia. Isto é muito belo mas,não pode ser tomado por regra de fé e prática e nem se pode afirmar, como muitos tem feito, que está escrito na Bíblia.
Um outro embasamento que gostaria de tomar são duas declarações das Confissões Históricas e Reformadas com relação a hermenêutica usada. Entenda-se hermenêutica como “A ciência e arte de interpretação bíblica”, considera-se ciência porque ela tem normas, regras e, podem ser classificadas em um sistema ordenado. Arte, porque a comunicação é flexível.

A Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1, parágrafo IX, diz o seguinte: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.” Ou seja, a Escritura interpreta a Escritura, o texto deve ser analisado a luz do seu contexto imediato, os versos que vem antes ou depois e, existe apenas uma interpretação.”

Na Confissão Belga, no artigo 7 nos fala o seguinte: “Não se pode igualar escritos de homens às Escrituras divinas. Nem se pode igualar à verdade de Deus costumes, popularidade, antiguidade, sucessão de tempos ou de pessoas, ou concílios, decretos e resoluções. Por isso, rejeitamos, de todo o coração, tudo que não está de acordo com esta regra infalível, conforme os apóstolos nos ensinaram: “Provai os espíritos se procedem de Deus” (1ª Jo 4.1); “Se alguém vem ter convosco e não traz essa doutrina, não o recebais em casa.” (2ª Jo 10). Com estes embasamentos passemos a argumentação.

I – AUTORIA
Muito se tem argumentado que não seja João o autor deste evangelho mas, comprovações externas e internas nas Escrituras nos levam a creditar que João realmente tenha escrito. A primeira evidência é a externa, os escritos de Irineu no século II d.C atribui explicitamente e de maneira consistente sua autoria. De maneira interna temos os seguintes textos: Jo 21.2,20; 13.24-26; Mt 4.21;  1.1; 1ª Jo 1.1. Não há como negar a autoria Joanina.

II – O TEXTO
                Vejamos os fatos do texto.
                Os discípulos estão às margens do mar de Tiberíades, ou Mar da Galiléia. Este lugar era muito conhecido de Jesus e de seus discípulos. Segundo o texto estão lá Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael e os filhos de Zebedeu Tiago e João. Já era o terceiro dia pós-ressurreição de Cristo, Pedro avisa que iria pescar e todos vão com ele. (Vs. 2,3) O que vai acontecer em fatos reais é um diálogo entre Pedro e Cristo acerca do seu amor a Ele. Como o profº Bruno vai fazer ao analisar o texto deste diálogo é que, em primeiro lugar se faz necessário constatar as pessoas do discurso. Assim vejamos: “Existem três pessoas no discurso, e que existe uma relação entre elas”, relação esta que constatada no próprio texto. Ficam em evidência não mais os discípulos e sim Pedro, Jesus e uma terceira personagem. “A primeira relação é interpessoal”, diz o professor.  Segundo ele, “ocorre uma participação ativa e passiva dessas três pessoas no contexto, identificadas como: Jesus, Pedro e o discípulo a quem Jesus amava, Jo 21.20.” A segunda confirmação da personagem do texto ser conclusiva, conforme nos explica o profº Bruno está na autoafirmação que o próprio discípulo faz, “Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro”. Vs 24.
                Vamos nos ater agora ao problema proposto que é quanto a afirmação de Jesus acerca do questionamento de Pedro em relação a João. O texto deixa transparecer um certo conflito entre os dois, pois a resposta de Cristo é contundente e imediata. Vejamos os versículos 21 e 22: “Perguntou Pedro a Jesus: E quanto a este? Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa? Segue-me tu.”

                O que importava naquele momento não era João e sim Pedro, era a Pedro que Jesus estava conduzindo aquele diálogo. O Profº Bruno faz a seguinte colocação:
“A partícula ‘se’ utilizada por Jesus no v.22, como pronome relativo, completa o sentido de ‘eu quiser’ – vontade soberana – transforma  o diálogo numa tensão entre eles, fazendo com que a oração Subordinada Adjetiva, passe a ser concebida como uma frase interrogativa”.
               
                Não há, por análise dos versos seguintes, nenhuma afirmação de Jesus em relação a João se ele permaneceria até sua volta ou não.  Segundo o Profº Bruno “a frase é exclusivamente interrogativa, não podendo assim, se tirar quaisquer conclusões sobre o assunto. É uma oração inacabada, precisando de complemento.”

O próximo verso é chave para nossa explanação, acompanhe:
“Então se tornou corrente entre os irmãos o dito que aquele discípulo não morreria...” A.R.A e A.R.C.
“Foi por isso que se espalhou entre os irmãos...” N.V.I
O mesmo verso nos dá a resposta: “Ora, Jesus não disse que aquele discípulo  não morreria, mas: Se eu quero que ele permaneça que te importa?”

Fica claro por estas análises do verso que, falar que aquilo foi uma promessa de Jesus a João e que ele não morreria é infundada e ainda mais, pregar sobre isto também não passa de uma heresia sem tamanho.
Para não ficar apenas nas palavras vejamos algumas traduções destes textos:

grego
εξηλθεν ουν ο λογος ουτος εις τους αδελφους οτι ο μαθητης εκεινος ουκ αποθνησκει και ουκ ειπεν αυτω ο ιησους οτι ουκ αποθνησκει αλλ εαν αυτον θελω μενειν εως ερχομαι τι προς σε

Tradução literal
“Portanto, saiu esta palavra para os irmãos, que aquele discípulo não ,morre. No entanto, Jesus não disse a ele que ele não morre, mas: ‘Caso Eu deseje ele permanecer enquanto Eu venho, que importa a ti?”

Edição católica, edição Ave Maria
Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: Não morrerá, mas: Que te importa se quero que ele fique assim até que eu venha? 
João 21:23

Bíblia Latino americana em catellano
Por esta razón corrió entre los hermanos el rumor de que aquel discípulo no iba a morir. Pero Jesús no dijo que no iba a morir, sino simplemente: «Si yo quiero que permanezca hasta mi vuelta, ¿a ti qué te importa?»




Nova Vulgata Latina
Exivit ergo sermo iste in fratres, quia discipulus ille non moritur. Non autem dixit ei Iesus: “ Non moritur ”, sed: “ Si eum volo manere donec veniam, quid ad te? ”. 
João 21:23

Vulgata Latina
exivit ergo sermo iste in fratres quia discipulus ille non moritur et non dixit ei Jesus non moritur sed si sic eum volo manere donec venio quid ad te

Revista e Corrigida
Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? 


Fica claro nestes versículos que Jesus não estava afirmando que João não morreria ou como diz o profº Bruno: “percebe-se que houve uma tentativa exegética frustrada de colocar afirmações teológicas particulares, parciais ou tendenciosas que evidenciam um erro comum no meio cristão.” Posso afirmar que, pregar que ‘o crente em Jesus Cristo não morre enquanto não se cumprir as promessas sobre sua vida’ é um total engano. Este ensino entra em contradição com a Palavra de Deus em diversas passagens.


CONCLUSÃO

A que denominador chegamos?
Fica claro que pela exegese e pela hermenêutica sagrada que a analise dos textos é fiel aos propósitos do estudo. Analisar ou falar e até pregar aquilo que não está claro nas Escrituras pode-se incorrer em uma heresia que seria ‘o ensino errado sem base escriturística’. Um segundo ponto é aquilo que as regras de interpretação no diz: “Um texto só pode ser analisado a luz do seu contexto”, que neste caso são os versos imediatos. Fazer afirmações de músicas e experiências pessoais é colocá-los acima das Escrituras, o que constitui erro de interpretação ou até mesmo adicionar doutrinas ou revelações pessoais aquilo que já existe e já foi tido como Escritura Inspirada e Autorizada. Para fechar, João diz o seguinte:
“Este é o discípulo que dá testemunho a respeito destas coisas e que as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” V. 24.


Que Deus abençoe a todos. SOLA ESCRIPTURA.

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