PROÊMIO DA ÍLIADA DE HOMERO
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A Musa Kalíope. Musa dos poemas épicos. Disponível em: www.facebook.com/LinguasClassicasUfpb.
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Para
traduzirmos um texto, devemos partir da formulação de algumas perguntas, dentre
elas podemos destacar três, que são: 1) O quê traduzir? Como traduzir? e para
quem traduzir (Qual público alvo)?
Essas e outras perguntas são
necessárias para darmos encaminhamento ao trabalho de tradução, tendo em vista
que não será qualquer texto, mas a minha tradução.
É necessário também que, aqueles que
se propõem a fazer e/ou ter esse trabalho, o conhecimento de sua própria
língua, que chamaremos de ‘língua de chegada’. Sem esse conhecimento nossa
tradução poderá perder um pouco da essência do texto original, que chamaremos
aqui de ‘texto de partida’.
Toda a
Ilíada pode ser conhecida logo em seu início, o proêmio. Esta palavra pode ser
entendida como prefácio, exórdio e/ou princípio do discurso. E é isto que estes
sete primeiros versos tratam, este é o cerne de todo o poema, tendo em vista que
o desenrolar do canto 1 e de todo o poema acontece aqui, temos 1)a invocação,
2) o assunto e 3) o resultado.
Portanto, nosso trabalho visa numa
breve análise e tradução do proêmio da Ilíada, de Homero. Salientando que se
trata de uma tradução mecânica em que tentaremos contemplar a essência do texto
para depois construirmos, dentro das limitações da língua de chegada, uma
versão que possa ser palatável e de fácil entendimento. Vamos ao texto grego:
μῆνιν
ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην,
ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς
δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων,
αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί
τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ
οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης
τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύ
Nossa tradução:
Ó Kalíope, celebra a cruel ira de Aquiles Pelida,
que inúmeros sofrimentos causou aos Aqueus,
lançando ao Hades muitas almas de corajosos heróis.
Ela dispôs os mesmos como repasto aos cães e as aves de rapina,
realizando-se o desígnio de Zeus.
No momento em que, inicialmente, desentenderam-se, entrando os dois em
disputa:
o Atrida, Senhor dos heróis e o divino Aquiles.
Ao começar pela
invocação as Musas, Homero pretende mostrar que este canto não é de si mesmo,
mas algo que está fora dele mesmo. Para estes povos antigos qualquer forma de
arte era inspiração de algo ou alguém que estava fora do plano material,
portanto, vindo do mundo imaterial, que neste caso do texto seria a musa. Temos
essa invocação em muitos outros escritos, dentre os quais destacamos: A
Odisseia, Eneida e a Teogonia. É neste último que vemos duas funções das musas:
1) Cantar aos deuses e 2) Inspirar no aedo um canto divino. Na nossa tradução
optamos por chamá-la pelo nome, Kalíope, para aqueles leitores que não tem
conhecimento prévio sobre mitologia. Kalíope, gr. Καλλιόπη, era uma das nove
musas filhas de Zeus e Memória. Era esta que inspirava nos aedos o belo canto.
Isso pode ser observado na Teogonia, de Hesíodo, verso 79.
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Palas Atena com a égide representada na túnica. Mármore do século V-IV a. C. Museu do Louvre, Paris. Disponível em: www.facebook.com/LinguasClassicasUfpb. |
É interessante notar também o verbo ἄειδε, ἄειδω,
que uma tradução possível seria ‘celebrar’. Fiz opção por ‘celebrar’ tendo em
vista o seu caráter sacro, religioso. Isso remonta aos ritos sagrados, tais
como: os ritos de cura. Talvez seja essa a acepção que mais se aproxima aqui,
pois o aedo é somente o instrumento pelo qual a divindade irá se manifestar.
O assunto já
está marcado no proêmio: a ira de Aquiles. Esta ira é reforçada pelo
adjetivo οὐλομένην, que pode ser traduzido por funesto, cruel, sinistro. No
canto I será evidenciada pela tomada do seu espólio de guerra, Briseida.
Agamêmnom irá tomá-la e o melhor dos Aqueus abandonará a guerra (Canto 1.
versos 189-192; versos 234-244). O canto XXI será outro momento em que veremos
toda essa ira em sua forma mais cruel. Aquiles perpetrará uma carnificina monstruosa
ao ponto de parar o curso da água do Rio Xanto, que em súplica, lhe roga que
lute nas planícies e o deixe chegar ao Oceano. Toda a consumação desta ira é
dada no canto XXII com a morte de Heitor e o ultraje de seu corpo. Temos então
o início, o meio e o fim desta ira. Ira que causa sofrimento não só aos Aqueus,
mas também aos Troianos. Observe que μυρί pode ser traduzido por ‘inumeráveis’.
Isto dá a ideia de que não houve uma enumeração fixa, mas algo incontável e que
traz uma sensação de dor. Neste caso poderíamos traduzir μυρί᾽ ἄλγε᾽, por
‘inumeráveis sensações de dores’, dando um sentido de não poder enumerar essas
sensações. Traduzimos este trecho: ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε, por: “que
inúmeros sofrimentos causou aos Aqueus”, entendendo que a palavra
‘sofrimento’ coloca-se de forma prática e real.
Estes
sofrimentos não cessão enquanto os heróis estão vivos, mas transcendem para um
outro plano, para o Hades, a região dos mortos. Pelo verbo utilizado,
acreditamos que nem todos chegam ao Hades, mas são lançados diante das portas.
A nossa teoria se fundamenta no seguinte: o verbo é προΐαψεν, que está na
terceira pessoa do aoristo. Este é o verbo προΐαπτω, formado por προ+ἰάπτω. ἰάπτω
pode ser traduzido por lançar, arrojar e a preposição προ, diante de., o que
poderíamos traduzir por lançar diante de. Estas almas são lançadas, mas
não quer dizer que entram. Observamos isso no verso seguinte, quando o pronome
Ela retoma o sujeito ‘ira’, deixando claro nossa argumentação. Alguns corpos
não receberão as honras fúnebres, ficando como repasto para cachorros e aves de
rapina. Optei por traduzir ἑλώριον, como ‘repasto’ pela significação da não
honraria em relação ao rito fúnebre. É interessante notar essa significação,
pois a palavra ἑλώριον significa mesmo ‘alimento’, o que corrobora com o texto.
Neste caso, estes corpos não tem as honras devidas e sem essa honraria não
poderiam descansar, nem chegar ao Hades e nem terem suas memórias perpetuadas.
Por conseguinte, teremos a razão de tudo isso estar acontecendo: os
desígnios de Zeus. O verbo τελέω, que está na voz média, no aspecto
inacabado, dá a ideia de que este desígnio se desencadeará por todo o poema.
O próximo
verso, sendo nossa conclusão, nos informará em qual momento se desencadeará
essa querela. Esses dois últimos versos são interessantes, chamo a atenção,
principalmente para os verbos: διαστήτην e ἐρίσαντε. Ao primeiro verbo temos a
construção com a preposição διά+ἳστημι. O difícil foi encontrar uma palavra ou
forma verbal na língua de chegada que possa traduzir o sentido deste verbo. Se
pela ação que está sendo praticada talvez tivéssemos: colocando-se os dois em
pé, se separam. O que soaria estranho, pois ἐρίζω, é renhir, rivalizar, lutar.
Como então chegar a uma conclusão? Ao meu ver, para que não se perca o sentido,
traduzimos por uma locução: entrando em. Logo, o sentido da ação que está em
evidência nestes versos não é perdida, pois os dois ficam em pé rivalizando-se.
É estando de pé frente à frente, olho no olho.
Por fim,
Homero já nos indica uma outra forma de conhecimento de nossos heróis: os
epítetos. Essa forma de chamá-los mostra-nos duas coisas: 1) o caráter do herói
e 2) a investidura de autoridade que cada uma personagem terá no poema. A
Agamêmnom é colocado o epíteto de ἄναξ ἀνδρῶν, Senhor dos Heróis, este epíteto
somente é dirigido a Agamêmnom devido a sua investidura divina. O cetro
fora-lhe dado por seu pai que, se retrocedermos na sua genealogia, fora
concedido por Zeus. Poderia ser ‘dos homens’, mas aqui talvez soasse impreciso,
pois no poema não estamos tratando de simples homens, mas de heróis. Aquiles
aqui é o δῖος Ἀχιλλεύς, o que é preterido pelos deuses.
Ao concluirmos nosso
artigo verificamos quão rica é a leitura deste poema. Sendo um clássico da
literatura universal, o leitor ou aquele que deseja desvendar os “mistérios”
que estão inseridos neste poema, verificará quão rica e prazerosa será sua
leitura. Vale alertá-los que será necessário algumas informações prévias, pois
o poema não trata da tomada de Tróia e sim, da ira funesta de aquiles. Um
episódio dentro de uma ordem que chamamos de global. Boa leitura!
Adriano Bezerra
Graduando em Letras Clássicas, com habilitação em Latim e Grego, pela UFPB.
Fonte:
HOMERO. A Ilíada. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço. 1ª Ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018.