Pensamento Reformado em Meio a Crise

SOLA ESCRIPTURA, SOLA FIDE, SOLA GRATIA, SOLO CRISTUS E SOLE DEO GLÓRIA

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus. Rm 6.23 


Uma das trilogias que assisti e ainda assisto várias vezes é O Senhor dos Anéis. Em inglês: The Lord of the ring. A sequência foi dirigida por Peter Jackson e os livros, que não foram poucos, por J. R. R. Tolkien. Era filólogo e professor universitário. Ensinou em Oxford, de 1925 a 1959. Grande amigo de outro gênio da literatura, o autor de As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.
A ambientação da trilogia se passa na Terra Média. Lugar em que estão reunidos homens, elfos, anões, orcs, magos e outros seres fantásticos. Você só descobrirá todas as informações contidas nos filmes, inclusive a trilogia do Hobbit, se ler os livros, inclusive o Silmarillion.
Como temos que partir de um evento, escolhi a Segunda Era da Terra Média. Pois, ao iniciar o primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel tem descrito uma aliança entre Elfos, Anões e Homens. Essa pequena introdução é toda narrada por Galadriel, elfo feminina e que é um dos seres primordiais nesse mundo (Silmarillion). Nessa aliança são forjados os anéis de poder, que serviriam para que cada ser pudesse governar seus povos e reinos.

Três anéis para os Reis Élficos, sob o céu, e os mais justos entre eles;

Sete para os Senhores Anões, senhores sob a montanha e,

Nove para os Homens Mortais, que desejam o poder.

Segundo é descrito eles foram enganados pelo Senhor do Escuro, no fogo da montanha da perdição, Sauron, que forja o Um Anel, com a intensão de governar de forma tirânica toda Terra Média. Neste anel, Sauron coloca toda sua maldade e desejo de exercer domínio sobre todos os outros:

                                                                  Um anel para a todos governar, um
                                    Anel para encontra-los,
Um anel para a todos trazer e na
                   Escuridão aprisioná-los,
     Na terra de Mordor onde as sombras se deitam.

Assim toda a trama dentro deste Universo Fantástico se desenvolverá a partir deste Um Anel. Frodo e Sam, Hobbits do Condado, terão a missão de leva-lo para a montanha da perdição e destruir o Um Anel. Eles não estarão sozinhos, será constituída uma sociedade chamada de: A Sociedade do Anel. Um anão, dois homens, um elfo, um mago e dois hobbits.
Uma outra personagem é introduzido nesta estória e aparecerá na trama para tentar à Frodo e Sam para que não destruam o Um Anel. Essa personagem se chama Gollum, que conheceremos como Smigau. A primeira vista não sabemos de onde ele veio e até mesmo quem ele é. Mas temos suas características. O detalhe de quem ele é e como ele aparece na trama da trilogia só serão revelados no último filme: O Retorno do Rei.
Smigol é um Hobbit, e como todos tem certas características, como os pés grandes e peludos. A cena é uma pescaria em que o seu colega, ao fisgar um peixe, cai do barco e é levado para o fundo do rio. Lá ele vê uma coisa brilhante no fundo e o pega para si. Ao chegar à superfície ambos lutam e Smigol acaba matando seu companheiro. É nesta cena também que ouvimos pela primeira vez a expressão: MEU PRECIOSO.
Interessante notar é que ao vislumbrar o anel todos os nossos sentimentos ruins são postos para fora. Veja-se que na cena há uma fixação de olhar das duas personagens e depois a luta corporal, culminando na morte de um deles.
Essa fixação pelo anel de poder levará nosso amigo a uma vida na escuridão. Daí entendemos a natureza do seu caráter, escuso, orgulhoso, maléfico. Desta forma sabemos que, não somos nós que escolhemos o anel, é ele quem escolhe. Ao vermos esta cena lembramos-nos do apóstolo Paulo em sua primeira carta a Timóteo 4.1:

Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e doutrinas de demônios.

 E ainda no capítulo 3.1-3:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão dias difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores [...].

Todas essas características são aplicáveis à nossa personagem. Ele não medirá esforços para fazer com que Frodo e Sam não destruam o anel nas chamas da Montanha da Perdição.
O que isso tem haver com o texto bíblico? Tudo. Somos apresentados pelo apóstolo àquilo que de tão grave nos atormenta, mesmo sendo salvos e escolhidos pelo Criador: O PECADO.
Em todo o texto, Paulo está fazendo um paralelo entre morte e ressurreição. Ele já vem tratando sobre isso desde o capítulo 3, advertindo e mostrando que o pecado é a consequência direta da desobediência de Adão e que “não nem um justo, nenhum sequer”. Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, pois todos pecaram. Rm 5.12.
Agora, neste capítulo, note-se que é um texto dissertativo-argumentativo, que é a defesa de sua tese responder a uma possível indagação que talvez, alguém poderia ter-lhe questionado: Então, se somos salvos de uma vez por todas e por estarmos neste período de graça, podemos fazer tudo. Inclusive pecar à vontade?
A pergunta é retórica: v.1: Permaneceremos no pecado para que a graça aumente? Ou seja, quanto mais peco, mais graça ele me dá. Ele vai responder de modo categórico: de maneira nenhuma! E formular um questionamento ao seu interlocutor: v.2: Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Não há qualquer maneira de sermos salvos e continuarmos vivendo na prática do erro. 
O pecado não é para ser experimentado, não é para servir de brinquedo e como consequência vivermos brincando com ele, tê-lo como estimação, guarda-lo. O pecado desvirtua o homem, enferma-o, quebra sua aliança com Deus e com os homens, gera culpa, remorso, coloca-o no mais fundo abismo da moralidade, até leva-lo à morte. O salmista passou por estes momentos e pôde descrevê-los:
Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, meu corpo definhava de tanto gemer. Salmos 32.4
Nós não nascemos para o pecado, para sermos escravos dele, que é outra temática no texto. Somos escravos daquele a quem nos submete-mos.
O pecado é algo inerente a todo ser humano, nascemos com essa mancha. O salmista vai dizer que nasceu em iniquidade e em pecado a sua mãe o havia concebido.

Cada um é tentado pelo seu próprio mal desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então, esse desejo, tendo concebido dá à luz o pecado, e o pecado sendo consumado gera a morte. Tg 1.14,15 (NVI).

Não há pecado grande ou pequeno, uma mais grave outro mais leve, tudo que desvirtua o homem do que Deus estabeleceu para ele é pecado e precisa ser banido da nossa vida. O Catecismo Maior de Westminster traz a seguinte declaração em sua primeira pergunta:

Qual é o fim supremo e principal do homem?
R: O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo sempre.
Rom. 11:36; 1 Cor. 10:31; Sal. 73:24-26; João 17:22-24.


Dessa maneira, fica claro pela exposição acima o objetivo maior do ser humano como obra prima da criação de um Deus tão Maravilhoso. Nas palavras de C. S. Lewis:

Não importa quão pequenos são os pecados desde que o seu efeito cumulativo seja desviar o homem para longe da luz, direto para o nada. (LEWIS, 2017)


Maldanado, personagem do livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, retrata as estratégias e artimanhas que são engendradas para aprisionar o homem, objeto nas mãos de seu sobrinho Vermelindo. O autor vai de maneira bem didática nos mostrar que as estratégias continuam as mesmas há milênios.
Gollum, a personagem da nossa introdução, escolhe alimentar-se com o desejo de cobiça, que é inerente a todos os seres, pelo Um Anel. Ele irá leva-lo a um caminho sem volta. Durante toda a peregrinação de Frodo e Sam ele mente, coloca ciladas, leva-os ao covil de uma grande aranha, joga fora os pães élficos dizendo que o Sam havia comido todos, fazendo intriga entre os companheiros de viajem. Frodo é a representatividade nossa de a cada dia levarmos a nossa cruz. Em um momento Sam pede para dividir o peso desta carga, mas ter o Um Anel nas mãos é colocar-se em perigo. Frodo toma para si essa responsabilidade.
O que fazermos para que, assim como Gollum, não caiamos nas garras do pecado?

Tomando como início o verso 2 em que que somos confrontados pelo Apóstolo sobre essa vida dúbia, devemos reconhecer que a analogia entre batismo e morte, ressurreição e vida, são pertinentes a nós cristãos, que assim como Cristo morreu e essa morte é simbolizada pelo batismo, um mergulho na morte para uma ressurreição em Cristo, somos convocados por Paulo a termos uma vida integra. A não sermos mais escravos do pecado, pois o nosso velho homem foi sepultado e agora “vivemos em novidade de vida”.
Não precisamos e não podemos ser escravos do pecado, pois já fomos justificados por Cristo e agora somos novas criaturas. Segundo ele, somos agora escravos da justiça para darmos frutos dignos de arrependimento.
Três lições podemos tirar e que se encontram nos versos 11-14, do capítulo 6:

1 – Considerai-vos morto para o pecado -  v. 11.
λογιζεσθε εαυτους νεκρους μεν τη αμαρτια.
       O verbo λογιζεσθε, logdzesthe, está na voz média, o que seria em português a voz passiva pronominal, em que a ação recai sobre o próprio sujeito, vós. A αμαρτια, amartia, é o erro perpetuado de geração após geração e que somente a morte de alguém, em se tratando da própria família, poderia eliminá-lo. Nós não tínhamos condições para tal, Cristo assume esta condição.

2 – Não reine, portanto, o pecado – v. 12.
ουν βασιλευετω η αμαρτια
O verbo βασιλευετω, basileüetó, está na forma do imperativo, dando para nós uma ordem, com o advérbio de negação traz um reforço dando a ideia de um mandamento a ser seguido. Não deixe que o pecado seja soberano, rei, imperador na sua vida, essa é a ideia do verbo.

3 – Não ofereceis os membros de seu corpo ao pecado – v. 13.
μηδε παριστανετε τα μελη υμων οπλα αδικιας τη αμαρτια
O verbo aqui, παριστανετε, paristanete, também está no imperativo e voz média. Trazendo uma ideia de sacrifício que é apresentado. O termo αδικιας, adikías, pode ser traduzido por injustiça, pois precedido pelo alfa ou no português o a, traz a ideia daquilo que é contrário a justiça. Paulo está, na forma de um mandamento, nos instruindo: não entreguem, de maneira sacrificial, seus corpos como membros da injustiça.
                     
                     Cada uma dessas instruções trás consigo um contra ponto:

                     v. 11 – considerai-vos mortos... mas vivos para Deus;
                                 v. 12 – não reine... para que não obedeceis suas paixões;
                                 v. 13 – não ofereceis... oferecei-vos à Deus.

Na graça e/ou estando na graça, não há espaço pra pecarmos, na graça somos impulsionados a amar o Senhor de todo nosso coração, de toda nossa força e de todo nosso entendimento. Na graça somos levados a manter um estreito relacionamento com Deus. Na graça não há como voltar à prática do pecado.
Precisamos de maneira assertiva entender que não precisamos e não podemos viver nessa prática, pois,
[...] o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus.



terça-feira, 29 de janeiro de 2019


 ELEGIARVM  LIBER PRIMUS  

CYNTHIA



SEXTI PROPERTI


            Sextus Propertius, nasceu na Úmbria, por volta de 45 a.C., que segundo dizem, ainda criança, por volta de 40 a.C., viu suas propriedades serem confiscadas. Mais tarde, assim como outros poetas, com a finalidade de estudar direito, dirigiu-se para Roma. Como seus predecessores e contemporâneos, dedica-se a compor, sobretudo, elegias amorosas (Monteiro, 2006). Uma de suas publicações é o livro 1 que é dedicado a Cíntia (Cynthia monobiblos), teria sido publicado em 27 a.C.
         
         Sextus Propertius, nasceu na Úmbria, por volta de 45 a.C., que segundo dizem, ainda criança, por volta de 40 a.C., viu suas propriedades serem confiscadas. Mais tarde, assim como outros poetas, com a finalidade de estudar direito, dirigiu-se para Roma. Como seus predecessores e contemporâneos, dedica-se a compor, sobretudo, elegias amorosas (Monteiro, 2006). Uma de suas publicações é o livro 1 que é dedicado a Cíntia (Cynthia monobiblos), teria sido publicado em 27 a.C.

             Antes do século I a.C., a poesia lírica alcança pouca expressão entre os latinos. Mas, a partir da metade do “século de ouro”, o lirismo romano se afirma, tendo como grande expoente o poeta Catulo com o seu poema 85 – Odi et amo:

Odi et amo, quare id faciam, fortassi requiris.
                                               Nescio, sed fieri sentio et excrucior. 


Odeio e amo, por que motivo faço isto, perguntas talvez.         
Não sei, mas sinto acontecer e atormento-me.
(tradução minha). 



       Propércio faz parte do círculo dos poetas, que além de Catulo, podemos citar Tibulo e Ovídio. Sua elegia é caracterizada por um tom meloso, condoído e erótico. Isso não no sentido sexual, mas pela razão de enaltecer o eros, o amor. Não busca por si mesmo convencer-nos da verdade, mas deixa transparecer a si mesmo como um simulacro caído, deitado e prostrado. 





Cynthia prima suis miserum me cepit ocellis, contactum nullis ante
cupidinibus.







                 Cíntia, a primeira, seduziu-me com seus olhos encantadores. A mim, um miserável, antes tocado por nenhuma paixão. (trad. minha).


         Sempre começando pelo verbo, neste trecho temos capere como o centro da ação. Umas das acepções do verbo é capturar com a mão, tomar, em um sentido figurado e poético pode ser seduzir, cativar, tornar prisioneiro. Essa última pode caber aqui, pois o dativo ocellis reforça o instrumento pelo qual ele fora capturado. É interessante notar que ocellus é diminutivo de ocullus e trata este instrumento de sedução como algo sedutor e, como o próprio termo faz referência, pequeno. Eu dei preferência a traduzir por sedução e que fora capturado por olhos encantadores, pois pode acentuar a loucura da paixão. Isto é exatamente como o poeta se sente: seduzido por algo incomum, os olhinhos.
         
       Para os aedos (poetas) as musas eram as inspiradoras do canto, eram o ponto de partida para aquilo que o poeta desejasse compor ou declamar. Aqui temos uma musa diferente, que faz o poeta ficar prostrado. Veja que isso é retratado no adjetivo miserum. Ele torna-se um pobre infeliz.  

Adriano Bezerra de Araújo
Graduando em Letras Clássicas, habilitação em Latim e Grego, pela UFPB.


PROÊMIO DA ÍLIADA DE HOMERO


A Musa Kalíope. Musa dos poemas épicos.
Disponível em: www.facebook.com/LinguasClassicasUfpb.



Para traduzirmos um texto, devemos partir da formulação de algumas perguntas, dentre elas podemos destacar três, que são: 1) O quê traduzir? Como traduzir? e para quem traduzir (Qual público alvo)?
            Essas e outras perguntas são necessárias para darmos encaminhamento ao trabalho de tradução, tendo em vista que não será qualquer texto, mas a minha tradução.
            É necessário também que, aqueles que se propõem a fazer e/ou ter esse trabalho, o conhecimento de sua própria língua, que chamaremos de ‘língua de chegada’. Sem esse conhecimento nossa tradução poderá perder um pouco da essência do texto original, que chamaremos aqui de ‘texto de partida’.

Toda a Ilíada pode ser conhecida logo em seu início, o proêmio. Esta palavra pode ser entendida como prefácio, exórdio e/ou princípio do discurso. E é isto que estes sete primeiros versos tratam, este é o cerne de todo o poema, tendo em vista que o desenrolar do canto 1 e de todo o poema acontece aqui, temos 1)a invocação, 2) o assunto e 3) o resultado.

            Portanto, nosso trabalho visa numa breve análise e tradução do proêmio da Ilíada, de Homero. Salientando que se trata de uma tradução mecânica em que tentaremos contemplar a essência do texto para depois construirmos, dentro das limitações da língua de chegada, uma versão que possa ser palatável e de fácil entendimento. Vamos ao texto grego:

μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύ

Nossa tradução:

Ó Kalíope, celebra a cruel ira de Aquiles Pelida,
que inúmeros sofrimentos causou aos Aqueus,
lançando ao Hades muitas almas de corajosos heróis.
Ela dispôs os mesmos como repasto aos cães e as aves de rapina,
realizando-se o desígnio de Zeus.
No momento em que, inicialmente, desentenderam-se, entrando os dois em disputa:
o Atrida, Senhor dos heróis e o divino Aquiles.

          Ao começar pela invocação as Musas, Homero pretende mostrar que este canto não é de si mesmo, mas algo que está fora dele mesmo. Para estes povos antigos qualquer forma de arte era inspiração de algo ou alguém que estava fora do plano material, portanto, vindo do mundo imaterial, que neste caso do texto seria a musa. Temos essa invocação em muitos outros escritos, dentre os quais destacamos: A Odisseia, Eneida e a Teogonia. É neste último que vemos duas funções das musas: 1) Cantar aos deuses e 2) Inspirar no aedo um canto divino. Na nossa tradução optamos por chamá-la pelo nome, Kalíope, para aqueles leitores que não tem conhecimento prévio sobre mitologia. Kalíope, gr. Καλλιόπη, era uma das nove musas filhas de Zeus e Memória. Era esta que inspirava nos aedos o belo canto. Isso pode ser observado na Teogonia, de Hesíodo, verso 79.

Palas Atena com a égide representada na túnica. Mármore do século V-IV a. C.
Museu do Louvre, Paris.
Disponível em: www.facebook.com/LinguasClassicasUfpb.













 É interessante notar também o verbo ἄειδε, ἄειδω, que uma tradução possível seria ‘celebrar’. Fiz opção por ‘celebrar’ tendo em vista o seu caráter sacro, religioso. Isso remonta aos ritos sagrados, tais como: os ritos de cura. Talvez seja essa a acepção que mais se aproxima aqui, pois o aedo é somente o instrumento pelo qual a divindade irá se manifestar.
     
           O assunto já está marcado no proêmio: a ira de Aquiles. Esta ira é reforçada pelo adjetivo οὐλομένην, que pode ser traduzido por funesto, cruel, sinistro. No canto I será evidenciada pela tomada do seu espólio de guerra, Briseida. Agamêmnom irá tomá-la e o melhor dos Aqueus abandonará a guerra (Canto 1. versos 189-192; versos 234-244). O canto XXI será outro momento em que veremos toda essa ira em sua forma mais cruel. Aquiles perpetrará uma carnificina monstruosa ao ponto de parar o curso da água do Rio Xanto, que em súplica, lhe roga que lute nas planícies e o deixe chegar ao Oceano. Toda a consumação desta ira é dada no canto XXII com a morte de Heitor e o ultraje de seu corpo. Temos então o início, o meio e o fim desta ira. Ira que causa sofrimento não só aos Aqueus, mas também aos Troianos. Observe que μυρί pode ser traduzido por ‘inumeráveis’. Isto dá a ideia de que não houve uma enumeração fixa, mas algo incontável e que traz uma sensação de dor. Neste caso poderíamos traduzir μυρί᾽ ἄλγε᾽, por ‘inumeráveis sensações de dores’, dando um sentido de não poder enumerar essas sensações. Traduzimos este trecho: ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε, por: “que inúmeros sofrimentos causou aos Aqueus”, entendendo que a palavra ‘sofrimento’ coloca-se de forma prática e real.
         Estes sofrimentos não cessão enquanto os heróis estão vivos, mas transcendem para um outro plano, para o Hades, a região dos mortos. Pelo verbo utilizado, acreditamos que nem todos chegam ao Hades, mas são lançados diante das portas. A nossa teoria se fundamenta no seguinte: o verbo é προΐαψεν, que está na terceira pessoa do aoristo. Este é o verbo προΐαπτω, formado por προ+ἰάπτω. ἰάπτω pode ser traduzido por lançar, arrojar e a preposição προ, diante de., o que poderíamos traduzir por lançar diante de. Estas almas são lançadas, mas não quer dizer que entram. Observamos isso no verso seguinte, quando o pronome Ela retoma o sujeito ‘ira’, deixando claro nossa argumentação. Alguns corpos não receberão as honras fúnebres, ficando como repasto para cachorros e aves de rapina. Optei por traduzir ἑλώριον, como ‘repasto’ pela significação da não honraria em relação ao rito fúnebre. É interessante notar essa significação, pois a palavra ἑλώριον significa mesmo ‘alimento’, o que corrobora com o texto. Neste caso, estes corpos não tem as honras devidas e sem essa honraria não poderiam descansar, nem chegar ao Hades e nem terem suas memórias perpetuadas. Por conseguinte, teremos a razão de tudo isso estar acontecendo: os desígnios de Zeus. O verbo τελέω, que está na voz média, no aspecto inacabado, dá a ideia de que este desígnio se desencadeará por todo o poema.

      O próximo verso, sendo nossa conclusão, nos informará em qual momento se desencadeará essa querela. Esses dois últimos versos são interessantes, chamo a atenção, principalmente para os verbos: διαστήτην e ἐρίσαντε. Ao primeiro verbo temos a construção com a preposição διά+ἳστημι. O difícil foi encontrar uma palavra ou forma verbal na língua de chegada que possa traduzir o sentido deste verbo. Se pela ação que está sendo praticada talvez tivéssemos: colocando-se os dois em pé, se separam. O que soaria estranho, pois ἐρίζω, é renhir, rivalizar, lutar. Como então chegar a uma conclusão? Ao meu ver, para que não se perca o sentido, traduzimos por uma locução: entrando em. Logo, o sentido da ação que está em evidência nestes versos não é perdida, pois os dois ficam em pé rivalizando-se. É estando de pé frente à frente, olho no olho.
          Por fim, Homero já nos indica uma outra forma de conhecimento de nossos heróis: os epítetos. Essa forma de chamá-los mostra-nos duas coisas: 1) o caráter do herói e 2) a investidura de autoridade que cada uma personagem terá no poema. A Agamêmnom é colocado o epíteto de ἄναξ ἀνδρῶν, Senhor dos Heróis, este epíteto somente é dirigido a Agamêmnom devido a sua investidura divina. O cetro fora-lhe dado por seu pai que, se retrocedermos na sua genealogia, fora concedido por Zeus. Poderia ser ‘dos homens’, mas aqui talvez soasse impreciso, pois no poema não estamos tratando de simples homens, mas de heróis. Aquiles aqui é o δῖος Ἀχιλλεύς, o que é preterido pelos deuses.
          Ao concluirmos nosso artigo verificamos quão rica é a leitura deste poema. Sendo um clássico da literatura universal, o leitor ou aquele que deseja desvendar os “mistérios” que estão inseridos neste poema, verificará quão rica e prazerosa será sua leitura. Vale alertá-los que será necessário algumas informações prévias, pois o poema não trata da tomada de Tróia e sim, da ira funesta de aquiles. Um episódio dentro de uma ordem que chamamos de global. Boa leitura!

Adriano Bezerra
Graduando em Letras Clássicas, com habilitação em Latim e Grego, pela UFPB.

Fonte:
HOMERO. A Ilíada. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço. 1ª Ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018.