Pensamento Reformado em Meio a Crise

SOLA ESCRIPTURA, SOLA FIDE, SOLA GRATIA, SOLO CRISTUS E SOLE DEO GLÓRIA

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus. Rm 6.23 


Uma das trilogias que assisti e ainda assisto várias vezes é O Senhor dos Anéis. Em inglês: The Lord of the ring. A sequência foi dirigida por Peter Jackson e os livros, que não foram poucos, por J. R. R. Tolkien. Era filólogo e professor universitário. Ensinou em Oxford, de 1925 a 1959. Grande amigo de outro gênio da literatura, o autor de As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.
A ambientação da trilogia se passa na Terra Média. Lugar em que estão reunidos homens, elfos, anões, orcs, magos e outros seres fantásticos. Você só descobrirá todas as informações contidas nos filmes, inclusive a trilogia do Hobbit, se ler os livros, inclusive o Silmarillion.
Como temos que partir de um evento, escolhi a Segunda Era da Terra Média. Pois, ao iniciar o primeiro filme da trilogia O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel tem descrito uma aliança entre Elfos, Anões e Homens. Essa pequena introdução é toda narrada por Galadriel, elfo feminina e que é um dos seres primordiais nesse mundo (Silmarillion). Nessa aliança são forjados os anéis de poder, que serviriam para que cada ser pudesse governar seus povos e reinos.

Três anéis para os Reis Élficos, sob o céu, e os mais justos entre eles;

Sete para os Senhores Anões, senhores sob a montanha e,

Nove para os Homens Mortais, que desejam o poder.

Segundo é descrito eles foram enganados pelo Senhor do Escuro, no fogo da montanha da perdição, Sauron, que forja o Um Anel, com a intensão de governar de forma tirânica toda Terra Média. Neste anel, Sauron coloca toda sua maldade e desejo de exercer domínio sobre todos os outros:

                                                                  Um anel para a todos governar, um
                                    Anel para encontra-los,
Um anel para a todos trazer e na
                   Escuridão aprisioná-los,
     Na terra de Mordor onde as sombras se deitam.

Assim toda a trama dentro deste Universo Fantástico se desenvolverá a partir deste Um Anel. Frodo e Sam, Hobbits do Condado, terão a missão de leva-lo para a montanha da perdição e destruir o Um Anel. Eles não estarão sozinhos, será constituída uma sociedade chamada de: A Sociedade do Anel. Um anão, dois homens, um elfo, um mago e dois hobbits.
Uma outra personagem é introduzido nesta estória e aparecerá na trama para tentar à Frodo e Sam para que não destruam o Um Anel. Essa personagem se chama Gollum, que conheceremos como Smigau. A primeira vista não sabemos de onde ele veio e até mesmo quem ele é. Mas temos suas características. O detalhe de quem ele é e como ele aparece na trama da trilogia só serão revelados no último filme: O Retorno do Rei.
Smigol é um Hobbit, e como todos tem certas características, como os pés grandes e peludos. A cena é uma pescaria em que o seu colega, ao fisgar um peixe, cai do barco e é levado para o fundo do rio. Lá ele vê uma coisa brilhante no fundo e o pega para si. Ao chegar à superfície ambos lutam e Smigol acaba matando seu companheiro. É nesta cena também que ouvimos pela primeira vez a expressão: MEU PRECIOSO.
Interessante notar é que ao vislumbrar o anel todos os nossos sentimentos ruins são postos para fora. Veja-se que na cena há uma fixação de olhar das duas personagens e depois a luta corporal, culminando na morte de um deles.
Essa fixação pelo anel de poder levará nosso amigo a uma vida na escuridão. Daí entendemos a natureza do seu caráter, escuso, orgulhoso, maléfico. Desta forma sabemos que, não somos nós que escolhemos o anel, é ele quem escolhe. Ao vermos esta cena lembramos-nos do apóstolo Paulo em sua primeira carta a Timóteo 4.1:

Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e doutrinas de demônios.

 E ainda no capítulo 3.1-3:

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão dias difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores [...].

Todas essas características são aplicáveis à nossa personagem. Ele não medirá esforços para fazer com que Frodo e Sam não destruam o anel nas chamas da Montanha da Perdição.
O que isso tem haver com o texto bíblico? Tudo. Somos apresentados pelo apóstolo àquilo que de tão grave nos atormenta, mesmo sendo salvos e escolhidos pelo Criador: O PECADO.
Em todo o texto, Paulo está fazendo um paralelo entre morte e ressurreição. Ele já vem tratando sobre isso desde o capítulo 3, advertindo e mostrando que o pecado é a consequência direta da desobediência de Adão e que “não nem um justo, nenhum sequer”. Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, pois todos pecaram. Rm 5.12.
Agora, neste capítulo, note-se que é um texto dissertativo-argumentativo, que é a defesa de sua tese responder a uma possível indagação que talvez, alguém poderia ter-lhe questionado: Então, se somos salvos de uma vez por todas e por estarmos neste período de graça, podemos fazer tudo. Inclusive pecar à vontade?
A pergunta é retórica: v.1: Permaneceremos no pecado para que a graça aumente? Ou seja, quanto mais peco, mais graça ele me dá. Ele vai responder de modo categórico: de maneira nenhuma! E formular um questionamento ao seu interlocutor: v.2: Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Não há qualquer maneira de sermos salvos e continuarmos vivendo na prática do erro. 
O pecado não é para ser experimentado, não é para servir de brinquedo e como consequência vivermos brincando com ele, tê-lo como estimação, guarda-lo. O pecado desvirtua o homem, enferma-o, quebra sua aliança com Deus e com os homens, gera culpa, remorso, coloca-o no mais fundo abismo da moralidade, até leva-lo à morte. O salmista passou por estes momentos e pôde descrevê-los:
Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, meu corpo definhava de tanto gemer. Salmos 32.4
Nós não nascemos para o pecado, para sermos escravos dele, que é outra temática no texto. Somos escravos daquele a quem nos submete-mos.
O pecado é algo inerente a todo ser humano, nascemos com essa mancha. O salmista vai dizer que nasceu em iniquidade e em pecado a sua mãe o havia concebido.

Cada um é tentado pelo seu próprio mal desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então, esse desejo, tendo concebido dá à luz o pecado, e o pecado sendo consumado gera a morte. Tg 1.14,15 (NVI).

Não há pecado grande ou pequeno, uma mais grave outro mais leve, tudo que desvirtua o homem do que Deus estabeleceu para ele é pecado e precisa ser banido da nossa vida. O Catecismo Maior de Westminster traz a seguinte declaração em sua primeira pergunta:

Qual é o fim supremo e principal do homem?
R: O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo sempre.
Rom. 11:36; 1 Cor. 10:31; Sal. 73:24-26; João 17:22-24.


Dessa maneira, fica claro pela exposição acima o objetivo maior do ser humano como obra prima da criação de um Deus tão Maravilhoso. Nas palavras de C. S. Lewis:

Não importa quão pequenos são os pecados desde que o seu efeito cumulativo seja desviar o homem para longe da luz, direto para o nada. (LEWIS, 2017)


Maldanado, personagem do livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, retrata as estratégias e artimanhas que são engendradas para aprisionar o homem, objeto nas mãos de seu sobrinho Vermelindo. O autor vai de maneira bem didática nos mostrar que as estratégias continuam as mesmas há milênios.
Gollum, a personagem da nossa introdução, escolhe alimentar-se com o desejo de cobiça, que é inerente a todos os seres, pelo Um Anel. Ele irá leva-lo a um caminho sem volta. Durante toda a peregrinação de Frodo e Sam ele mente, coloca ciladas, leva-os ao covil de uma grande aranha, joga fora os pães élficos dizendo que o Sam havia comido todos, fazendo intriga entre os companheiros de viajem. Frodo é a representatividade nossa de a cada dia levarmos a nossa cruz. Em um momento Sam pede para dividir o peso desta carga, mas ter o Um Anel nas mãos é colocar-se em perigo. Frodo toma para si essa responsabilidade.
O que fazermos para que, assim como Gollum, não caiamos nas garras do pecado?

Tomando como início o verso 2 em que que somos confrontados pelo Apóstolo sobre essa vida dúbia, devemos reconhecer que a analogia entre batismo e morte, ressurreição e vida, são pertinentes a nós cristãos, que assim como Cristo morreu e essa morte é simbolizada pelo batismo, um mergulho na morte para uma ressurreição em Cristo, somos convocados por Paulo a termos uma vida integra. A não sermos mais escravos do pecado, pois o nosso velho homem foi sepultado e agora “vivemos em novidade de vida”.
Não precisamos e não podemos ser escravos do pecado, pois já fomos justificados por Cristo e agora somos novas criaturas. Segundo ele, somos agora escravos da justiça para darmos frutos dignos de arrependimento.
Três lições podemos tirar e que se encontram nos versos 11-14, do capítulo 6:

1 – Considerai-vos morto para o pecado -  v. 11.
λογιζεσθε εαυτους νεκρους μεν τη αμαρτια.
       O verbo λογιζεσθε, logdzesthe, está na voz média, o que seria em português a voz passiva pronominal, em que a ação recai sobre o próprio sujeito, vós. A αμαρτια, amartia, é o erro perpetuado de geração após geração e que somente a morte de alguém, em se tratando da própria família, poderia eliminá-lo. Nós não tínhamos condições para tal, Cristo assume esta condição.

2 – Não reine, portanto, o pecado – v. 12.
ουν βασιλευετω η αμαρτια
O verbo βασιλευετω, basileüetó, está na forma do imperativo, dando para nós uma ordem, com o advérbio de negação traz um reforço dando a ideia de um mandamento a ser seguido. Não deixe que o pecado seja soberano, rei, imperador na sua vida, essa é a ideia do verbo.

3 – Não ofereceis os membros de seu corpo ao pecado – v. 13.
μηδε παριστανετε τα μελη υμων οπλα αδικιας τη αμαρτια
O verbo aqui, παριστανετε, paristanete, também está no imperativo e voz média. Trazendo uma ideia de sacrifício que é apresentado. O termo αδικιας, adikías, pode ser traduzido por injustiça, pois precedido pelo alfa ou no português o a, traz a ideia daquilo que é contrário a justiça. Paulo está, na forma de um mandamento, nos instruindo: não entreguem, de maneira sacrificial, seus corpos como membros da injustiça.
                     
                     Cada uma dessas instruções trás consigo um contra ponto:

                     v. 11 – considerai-vos mortos... mas vivos para Deus;
                                 v. 12 – não reine... para que não obedeceis suas paixões;
                                 v. 13 – não ofereceis... oferecei-vos à Deus.

Na graça e/ou estando na graça, não há espaço pra pecarmos, na graça somos impulsionados a amar o Senhor de todo nosso coração, de toda nossa força e de todo nosso entendimento. Na graça somos levados a manter um estreito relacionamento com Deus. Na graça não há como voltar à prática do pecado.
Precisamos de maneira assertiva entender que não precisamos e não podemos viver nessa prática, pois,
[...] o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus.