ESTUDO BASEADO EM UM TEMA PROPOSTO NA ESCOLA DOMINICAL EM MINHA IGREJA.
IGREJA PENTECOSTAL BATISTA SHALOM EM ÁGUA FRIA NO JOSÉ AMÉRICO.
PROBLEMA DISCUTIDO: “Você não morrerá enquanto Deus não
cumprir suas promessas em sua vida”
JUSTIFICATIVA:
Este
trabalho não visa dividir a igreja, principalmente a minha, mas, dar um
esclarecimento bíblico-teológico-exegético do texto que foi levantado para
sustentar algo que é duvidoso. Como disse Martinho Lutero: “Todo ensino que não
é sustentado pelas Escrituras deve ser rejeitado mesmo que faça chover milagres
todos os dias”. É também baseado na exegese do Professor Bruno Pontes da Costa,
sociólogo, teólogo e cientista da religião; Mestrando em Ciências da Educação,
pela Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia (ULHT) Mestre em
Divindade, pela FATEFFIR. Diretor Acadêmico da FAENOR, Faculdade João Pessoa/PB
e aluno do curso de letras, licenciatura em línguas clássicas (grego e latim)
da UFPB.
O TEXTO:
João 21.20-24
“Pedro, voltando-se, viu que o seguia
o discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se reclinara sobre o seu peito, e
dissera: Senhor, quem é que te há de trair?
Vendo-o Pedro, perguntou a Jesus:
Senhor, e deste que será?
Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que
ele permaneça até que eu venha, que te importa? Segue-me tu.
Então divulgou-se entre os irmãos este
dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não disse que ele
não morreria; mas: se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te
importa a ti?
Este é o discípulo que testifica
destas coisas e as escreveu. Sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.”
Gostaria
de começar tratando da problemática atual do movimento que tem acontecido em
algumas igrejas e que se reflete nas músicas que são cantadas em nossos dias.
Músicas essa que refletem a poesia musical de determinados autores e que
consequentemente algumas pessoas tem tomado para si e ensinado para outros o que
a Bíblia diz, quando na realidade não há nas Escrituras afirmação daquilo que
iremos tratar aqui. Gostaria de relacionar algumas frases dessas músicas:
Deus
é fiel. Letra e Música de Nani Azevedo. Conforme Registro no Cd “Bendito Serei”,
registrado sob o número BR-CGL-06-00005.
“Sim,
Deus é fiel para cumprir toda palavra dita a mim. Deus é fiel, Deus é fiel.
Eu
não morrerei enquanto o Senhor não cumprir em mim. Todos os Sonhos que Ele
mesmo sonhou pra mim.”
A outra é de Marquinhos Gomes.
“Não morrerei enquanto a promessa não se
cumprir
Quem tem promessa de Deus, não morre não, não desiste
Não”
Quem tem promessa de Deus, não morre não, não desiste
Não”
O grande problema não são as letras
que por sinal são belas composições. O problema está no fato de que essas
mesmas composições têm sido pregadas como normativas e divulgadas como texto
que está nas Escrituras. Elas são, talvez, experiências vividas por seus
autores o que não deixa de ser belo pois, o ‘eu lírico’ da poesia é que tem
demonstrado passar por situações adversas e que encontrou em Deus sua fonte de
escape. Como resposta, na canção, Deus faz promessas redentoras ao ‘eu lírico’
examinado na poesia. Isto é muito belo mas,não pode ser tomado por regra de fé
e prática e nem se pode afirmar, como muitos tem feito, que está escrito na
Bíblia.
Um outro embasamento que gostaria de
tomar são duas declarações das Confissões Históricas e Reformadas com relação a
hermenêutica usada. Entenda-se hermenêutica como “A ciência e arte de
interpretação bíblica”, considera-se ciência porque ela tem normas, regras e,
podem ser classificadas em um sistema ordenado. Arte, porque a comunicação é
flexível.
A
Confissão de Fé de Westminster, capítulo 1, parágrafo IX, diz o seguinte: “A regra infalível de interpretação da
Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o
verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é
múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos
que falem mais claramente.” Ou seja, a Escritura interpreta a Escritura, o
texto deve ser analisado a luz do seu contexto imediato, os versos que vem
antes ou depois e, existe apenas uma interpretação.”
Na
Confissão Belga, no artigo 7 nos fala o seguinte: “Não se pode igualar escritos de homens às
Escrituras divinas. Nem se pode igualar à verdade de Deus costumes,
popularidade, antiguidade, sucessão de tempos ou de pessoas, ou concílios,
decretos e resoluções. Por isso, rejeitamos, de todo o coração, tudo que não
está de acordo com esta regra infalível, conforme os apóstolos nos ensinaram:
“Provai os espíritos se procedem de Deus” (1ª Jo 4.1); “Se alguém vem ter convosco
e não traz essa doutrina, não o recebais em casa.” (2ª Jo 10). Com estes
embasamentos passemos a argumentação.
I – AUTORIA
Muito se tem argumentado que não seja
João o autor deste evangelho mas, comprovações externas e internas nas
Escrituras nos levam a creditar que João realmente tenha escrito. A primeira
evidência é a externa, os escritos de Irineu no século II d.C atribui
explicitamente e de maneira consistente sua autoria. De maneira interna temos
os seguintes textos: Jo 21.2,20; 13.24-26; Mt 4.21; 1.1; 1ª Jo 1.1. Não há como negar a autoria
Joanina.
II – O TEXTO
Vejamos
os fatos do texto.
Os
discípulos estão às margens do mar de Tiberíades, ou Mar da Galiléia. Este
lugar era muito conhecido de Jesus e de seus discípulos. Segundo o texto estão
lá Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael e os filhos de Zebedeu Tiago e João.
Já era o terceiro dia pós-ressurreição de Cristo, Pedro avisa que iria pescar e
todos vão com ele. (Vs. 2,3) O que vai acontecer em fatos reais é um diálogo
entre Pedro e Cristo acerca do seu amor a Ele. Como o profº Bruno vai fazer ao
analisar o texto deste diálogo é que, em primeiro lugar se faz necessário
constatar as pessoas do discurso. Assim vejamos: “Existem três pessoas no
discurso, e que existe uma relação entre elas”, relação esta que constatada no
próprio texto. Ficam em evidência não mais os discípulos e sim Pedro, Jesus e
uma terceira personagem. “A primeira relação é interpessoal”, diz o
professor. Segundo ele, “ocorre uma participação
ativa e passiva dessas três pessoas no contexto, identificadas como: Jesus,
Pedro e o discípulo a quem Jesus amava, Jo 21.20.” A segunda confirmação da
personagem do texto ser conclusiva, conforme nos explica o profº Bruno está na
autoafirmação que o próprio discípulo faz, “Este é o discípulo que dá
testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é
verdadeiro”. Vs 24.
Vamos
nos ater agora ao problema proposto que é quanto a afirmação de Jesus acerca do
questionamento de Pedro em relação a João. O texto deixa transparecer um certo
conflito entre os dois, pois a resposta de Cristo é contundente e imediata.
Vejamos os versículos 21 e 22: “Perguntou
Pedro a Jesus: E quanto a este? Respondeu-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique
até que eu venha, que te importa? Segue-me tu.”
O
que importava naquele momento não era João e sim Pedro, era a Pedro que Jesus
estava conduzindo aquele diálogo. O Profº Bruno faz a seguinte colocação:
“A
partícula ‘se’ utilizada por Jesus no v.22, como pronome relativo, completa o
sentido de ‘eu quiser’ – vontade soberana – transforma o diálogo numa tensão entre eles, fazendo com
que a oração Subordinada Adjetiva, passe a ser concebida como uma frase
interrogativa”.
Não
há, por análise dos versos seguintes, nenhuma afirmação de Jesus em relação a
João se ele permaneceria até sua volta ou não. Segundo o Profº Bruno “a frase é exclusivamente interrogativa,
não podendo assim, se tirar quaisquer conclusões sobre o assunto. É uma oração
inacabada, precisando de complemento.”
O próximo verso é chave para nossa
explanação, acompanhe:
“Então
se tornou corrente entre os irmãos o dito que aquele discípulo não morreria...” A.R.A e
A.R.C.
“Foi
por isso que se espalhou entre os irmãos...” N.V.I
O mesmo verso nos dá a resposta: “Ora,
Jesus não disse que aquele discípulo não
morreria, mas: Se eu quero que ele permaneça que te importa?”
Fica claro por estas análises do verso
que, falar que aquilo foi uma promessa de Jesus a João e que ele não morreria é
infundada e ainda mais, pregar sobre isto também não passa de uma heresia sem
tamanho.
Para não ficar apenas nas palavras
vejamos algumas traduções destes textos:
grego
εξηλθεν
ουν ο λογος ουτος εις τους αδελφους οτι ο μαθητης εκεινος ουκ αποθνησκει και
ουκ ειπεν αυτω ο ιησους οτι ουκ αποθνησκει αλλ εαν αυτον θελω μενειν εως
ερχομαι τι προς σε
Tradução literal
Tradução literal
“Portanto, saiu
esta palavra para os irmãos, que aquele discípulo não ,morre. No entanto, Jesus não disse a ele que ele não morre, mas: ‘Caso Eu deseje ele
permanecer enquanto Eu venho, que importa a ti?”
Edição católica, edição Ave Maria
Correu
por isso o boato entre os irmãos de
que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: Não
morrerá, mas: Que te importa se quero que ele fique assim até que eu
venha?
João 21:23
João 21:23
Bíblia Latino americana em catellano
Por
esta razón corrió entre los hermanos el
rumor de que aquel discípulo no iba a morir. Pero Jesús no dijo que no iba a
morir, sino simplemente: «Si yo quiero que permanezca hasta mi vuelta,
¿a ti qué te importa?»
Nova Vulgata Latina
Exivit
ergo sermo iste in fratres, quia discipulus
ille non moritur. Non autem dixit ei Iesus: “ Non moritur ”, sed: “ Si eum volo manere donec veniam, quid ad te?
”.
João 21:23
João 21:23
Vulgata Latina
exivit
ergo sermo iste in fratres quia discipulus ille non moritur et non
dixit ei Jesus non moritur sed si sic eum volo manere donec venio quid ad te
Revista e Corrigida
Divulgou-se,
pois, entre os irmãos este dito, que
aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que
não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te
importa a ti?
Fica claro nestes versículos que Jesus não
estava afirmando que João não morreria ou como diz o profº Bruno: “percebe-se que houve uma tentativa
exegética frustrada de colocar afirmações teológicas particulares, parciais ou
tendenciosas que evidenciam um erro comum no meio cristão.” Posso afirmar
que, pregar que ‘o crente em Jesus Cristo não morre enquanto não se cumprir as
promessas sobre sua vida’ é um total engano. Este ensino entra em
contradição com a Palavra de Deus em diversas passagens.
CONCLUSÃO
A que denominador chegamos?
Fica claro que pela exegese e pela
hermenêutica sagrada que a analise dos textos é fiel aos propósitos do estudo.
Analisar ou falar e até pregar aquilo que não está claro nas Escrituras pode-se
incorrer em uma heresia que seria ‘o ensino errado sem base escriturística’. Um
segundo ponto é aquilo que as regras de interpretação no diz: “Um texto só pode
ser analisado a luz do seu contexto”, que neste caso são os versos imediatos.
Fazer afirmações de músicas e experiências pessoais é colocá-los acima das
Escrituras, o que constitui erro de interpretação ou até mesmo adicionar
doutrinas ou revelações pessoais aquilo que já existe e já foi tido como
Escritura Inspirada e Autorizada. Para fechar, João diz o seguinte:
“Este é o discípulo que dá testemunho a
respeito destas coisas e que as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é
verdadeiro” V. 24.
Que Deus abençoe a todos. SOLA ESCRIPTURA.